Acesso à saúde especializada: Abramepo alerta para prejuízos da burocracia na assistência e o papel do médico pós-graduado

Acesso à saúde especializada: Abramepo alerta para prejuízos da burocracia na assistência e o papel do médico pós-graduado


O acesso à medicina especializada no Brasil é um desafio constante, e a Associação Brasileira de Médicos com Expertise de Pós-Graduação (Abramepo) acendeu um alerta durante seu recente debate em Brasília: a burocracia excessiva e a interpretação restritiva de normas estão prejudicando seriamente a população e desvalorizando profissionais altamente capacitados. O evento, que reuniu lideranças médicas, políticas e institucionais, destacou como a restrição ao exercício de médicos pós-graduados impacta diretamente a capacidade dos brasileiros de encontrar o atendimento médico de qualidade que necessitam.


A Abramepo, firme em sua missão de defender uma formação médica sólida e o exercício ético da profissão, tem levantado a bandeira da segurança na assistência como um pilar inegociável. No centro da discussão está a “insegurança jurídica para o médico”, um ambiente marcado por falhas de comunicação e distorções que causam “sofrimento real aos profissionais que exercem a sua atividade de forma ética, responsável e tecnicamente capacitada”, conforme apontado na abertura do evento. A verdade é que “legalmente quem possui um CRM ativo, formação reconhecida e capacitação adequada, está plenamente habilitado ao exercício da medicina”, mas o que se vê é uma confusão institucional.



A “Reserva de Mercado” que Impede o Acesso


O cerne do problema, para muitos participantes, reside na transformação do título de especialista em uma “reserva de mercado artificial”. Dr. Eduardo Teixeira, presidente da Abramepo, enfatizou o compromisso da associação com a “qualidade da medicina que é oferecida à população brasileira”. Ele defende que médicos que buscam aperfeiçoamento através de “pós-graduação reconhecida pelo MEC, uma pós-graduação regulada, regulamentada, uma pós-graduação, portanto, perfeitamente lícita”, não têm sido valorizados pelo Conselho Federal de Medicina.


Essa visão foi corroborada pelo Dr. Diovane Ruaro, presidente do Colégio Brasileiro de Cirurgia Plástica (CBCP), que descreveu a luta de sua instituição contra um modelo que, por anos, marginalizou profissionais qualificados. O CBCP, em parceria com a Abramepo, “abraçou uma série de profissionais capacitados, registrados, qualificados, atuantes na cirurgia plástica, na dermatologia estética, na medicina estética”, mas que são “desqualificados, humilhados, negligenciados” por não terem seguido o caminho tradicional do RQE. Para ele, o discurso de segurança do paciente, por vezes, esconde uma “reserva de mercado”, tolhendo o médico de exercer sua profissão plenamente. “Não nos permitem registrar como especialista”, lamentou Dr. Ruaro, destacando que “não há um único caminho” para a qualificação e excelência na medicina.



Redes de Atendimento Popular e a Realidade do SUS


A discussão ganhou um contorno ainda mais urgente com a participação do Dr. Alexandre Pimenta, diretor nacional médico da rede Amor e Saúde, que trouxe a visão prática de quem lida diariamente com milhões de atendimentos. Com mais de 500 unidades e 11 mil postos de trabalho para médicos, a rede atende cerca de 28 milhões de pessoas, provando ser uma ponte vital entre o médico e uma fatia significativa da população que depende de alternativas acessíveis.


Dr. Pimenta apontou o paradoxo: a própria AMB sugere que o médico atue na sua área após a pós-graduação para ter direito à prova de título, mas “como é que ele atua se ele não pode dizer que ele é daquela área?”. Ele questionou a elitização da medicina, que se preocupa com subespecialidade enquanto muitas regiões do Brasil ainda carecem de acesso básico e de qualidade. “A gente está muito longe de fornecer o acesso que a população brasileira, principalmente o interior, necessita”, afirmou.


Altair Vilar, do Grupo Todos, corroborou essa perspectiva, revelando uma verdade dolorosa: “É uma vergonha o SUS, está certo? Quando as pessoas procuram o SUS, as pessoas, se não tiver uma segunda alternativa, ela está perdida”. Ele ressaltou que 18 milhões de consultas anuais realizadas pelo seu grupo aliviam o SUS, atendendo uma população que, de outra forma, voltaria para casa sem atendimento. “Nós precisamos, queremos e vamos conseguir através das instituições. O CFM trabalha contra os seus representados”, criticou Vilar, chamando a atenção para o que considera um “domínio econômico” por trás da burocracia.



A Batalha Jurídica e a Voz da Lei


O debate também mergulhou nas implicações legais e na necessidade de segurança jurídica para os profissionais. Dr. César Brito, ex-presidente da OAB Federal, defendeu a “Constituição Cidadã” e o direito à educação continuada. Para ele, “a educação é fundamental, de que a educação não pode ser proibida”, e desestimular o aperfeiçoamento médico “é um desserviço não só para aquele que busca a educação continuada, mas sobretudo para a sociedade”.


Dr. Bruno Reis, sócio-fundador do Reis Figueiredo e Cantone Advogados e colaborador da Abramepo desde sua origem, destacou a “usurpação de prerrogativa” por parte dos conselhos de classe, que insistem em regulamentar o que seria papel do Ministério da Educação. Ele apontou que “65% dos médicos do Brasil, aproximadamente, não possuem RQE” e que “só a Abramepo que tem essa decisão, essas decisões através de ações de serviço público”, garantindo que membros possam publicizar suas pós-graduações. Bruno Reis também revelou o absurdo de proibir o médico sem RQE de “laudar” ou “prescrever”, o que “caminha para uma elitização da medicina”.



Propostas Legislativas e o Futuro da Medicina Brasileira


O senador Zequinha Marinho, autor do PL 2860/2025, apresentou sua proposta legislativa que busca garantir segurança jurídica no exercício da medicina, proteger o livre exercício profissional de médicos com formação em pós-graduação e assegurar transparência para pacientes. A iniciativa foi elogiada como um passo fundamental para amparar os médicos e a população. Dr. Roberto de Barros Barreto, advogado e dirigente partidário, salientou a importância do debate parlamentar para “delinear soluções legislativas juridicamente harmônicas” e que possam regulamentar a certificação profissional para o médico pós-graduado, acabando com fiscalizações não criteriosas. “O momento é oportuno”, afirmou.



A Luta por uma Saúde Mais Justa


Em suas considerações finais, Dr. Eduardo Teixeira reiterou a posição propositiva e construtiva da Abramepo. Ele reconheceu a heterogeneidade da pós-graduação, mas argumentou que a solução não é desestimular, e sim “regulamentar melhor a pós-graduação”, com o MEC e o conselho estabelecendo critérios claros. A ambiguidade de alguns conselheiros, que ora afirmam que o médico pode atuar, ora sugerem que a ausência de RQE pode configurar exercício ilegal, gera “desinformação” e “arbitrariedades”.


A Abramepo está em uma luta incansável pela valorização do médico pós-graduado e, consequentemente, por um sistema de saúde mais justo e acessível para todos os brasileiros. Acreditamos que a qualidade no atendimento à população depende de médicos que busquem aperfeiçoamento, e a burocracia não pode ser um impedimento.



Abramepo
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.