Enquanto filas de cirurgias crescem, mais da metade dos médicos que se forma todos os semestre fica de fora do sistema por não ter acesso a residência médica
Por que você espera meses ou até anos por uma cirurgia no Sistema Único de Saúde (SUS)? A resposta pode estar em uma barreira burocrática que impede mais de 245 mil médicos de trabalharem no sistema público de saúde brasileiro. Atualmente, o Brasil enfrenta uma grave crise de especialistas médicos no SUS. Filas intermináveis para cirurgias, consultas especializadas que demoram meses para serem marcadas e pacientes que viajam centenas de quilômetros em busca de atendimento são realidades que afetam milhões de brasileiros diariamente. Uma ferramenta desenvolvida pelo jornal O Globo, com base em dados do Ministério da Saúde, mostrou que o tempo na fila do SUS atingiu patamar recorde no ano passado: a espera para ser atendido por um médico pode levar até dois anos, enquanto a de uma cirurgia chega a 634 dias.
Existe um dado que poucos brasileiros conhecem, mas que explica muito sobre a crise na saúde pública: em 2024, apenas metade dos médicos recém-formados conseguiu acesso direto à Residência Médica (16.189 vagas para 32.611 graduados), o método tradicional para formar especialistas no Brasil. Isso significa que metade dos médicos precisa buscar capacitação via pós-graduações. E esse número aumenta a cada semestre, já que o número de alunos de medicina cresce em uma proporção muito maior ao número de vagas de residência médica. Segundo a Demografia Médica no Brasil 2025, em 2018, o número de matriculados na graduação era de 167.788, e de médicos cursando residência médica era de 37.742, uma proporção de 1 residente para cada 4,4 estudantes de medicina. Em 2024, esse contingente passou para 287.413 e 47.718, respectivamente, um residente para cada seis estudantes de medicina.
Esses médicos têm formação em pós-graduações reconhecidas pelo Ministério da Educação (MEC), estudam por anos, dominam técnicas complexas e se tornam especialistas competentes. Mas quando tentam trabalhar no SUS, esbarram numa parede burocrática quase intransponível. “A lei afirma que todos os médicos com registro no CRM podem atuar em qualquer especialidade, mas uma norma do Conselho Federal de Medicina impede que os médicos que se especializam em pós-graduações, mestrados e doutorados possam anunciar sua especialização. E isso provocou uma verdadeira caça às bruxas: muitos editais de concurso do SUS restringem as vagas aos profissionais que têm RQE. Ou seja, o próprio governo federal acaba restringindo as vagas do SUS a metade dos médicos. Não é de estranhar que faltem especialistas”, afirma Eduardo Teixeira, presidente da Associação Brasileira de Médicos com Expertise em Pós-Graduação (Abramepo), professor titular da Escola de Medicina e Cirurgia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), cirurgião plástico e membro do Colégio Brasileiro de Cirurgia Plástica (CBCP).
A matemática do desperdício
Esse gargalo se afunila ainda mais se considerarmos que a maioria dos médicos não pretende construir sua carreira no SUS. Segundo dados da Demografia Médica Brasileira, apenas 24,6% dos residentes têm a intenção de trabalhar exclusivamente no SUS após a conclusão da residência. Enquanto o SUS tem déficit de especialistas em praticamente todas as áreas, milhares de médicos qualificados ficam impedidos de contribuir. É como ter profissionais treinados impedidos de atuar por uma questão burocrática.
A Abramepo surgiu para combater essa situação. A entidade defende que reconhecer as pós-graduações em medicina poderia aumentar drasticamente o número de especialistas disponíveis, incorporando os médicos atualmente excluídos do sistema. Isso resultaria na redução das filas de cirurgias e consultas especializadas, ampliando a cobertura em regiões carentes e acelerando o atendimento.
Os números revelam a dimensão do problema. A entidade aponta que a atual situação gera um desperdício de recursos e talentos. Ao impedir que médicos com pós-graduação reconhecida pelo MEC atuem plenamente, o sistema de saúde perde a oportunidade de otimizar o atendimento, reduzir custos com deslocamentos de pacientes e diminuir gastos com internações prolongadas.
Desde 2017, a entidade já conquistou inúmeras vitórias na Justiça garantindo o direito dos médicos pós-graduados. “Não é uma briga corporativa, é uma questão de saúde pública. Quando impedimos médicos qualificados de trabalhar, quem sofre é a população mais carente, aquela que não tem convênio e depende exclusivamente do SUS”, comenta Teixeira.
Uma nova realidade é possível
A entidade propõe resolver a escassez de especialistas médicos no Brasil através do reconhecimento das especializações obtidas em programas de pós-graduação chanceladas pelo MEC, estabelecendo requisitos rigorosos de qualidade para esses cursos. A proposta inclui três pilares principais: a valorização dos médicos que buscaram qualificação através de pós-graduação devido à falta de vagas na residência médica, criando uma categoria de profissionais com expertise específica; a implementação de um sistema rigoroso de certificação para cursos de pós-graduação médica, com critérios mínimos como corpo docente qualificado e infraestrutura adequada; e a integração desses profissionais ao sistema de saúde.
A entidade defende um diálogo colaborativo entre entidades médicas e o MEC para construir um modelo regulatório eficaz que garanta qualidade na formação e amplie o acesso da população a cuidados médicos especializados, considerando esta uma questão urgente de saúde pública que não deve ser limitada por disputas corporativas. “O reconhecimento das pós-graduações em medicina poderia incorporar metade dos médicos atualmente excluídos do sistema de especialização, aumentando drasticamente o número de especialistas disponíveis para reduzir filas de cirurgias e consultas, ampliar a cobertura em regiões carentes e acelerar o atendimento à população”, comenta o presidente da associação.
Além disso, essa medida geraria economia de recursos públicos ao reduzir custos com deslocamentos de pacientes, diminuir gastos com internações prolongadas por falta de cirurgia e otimizar o uso da infraestrutura hospitalar existente, resultando em atendimento mais rápido, melhor prognóstico e redução do sofrimento da população.
O preço da inação
Enquanto a mudança não vem, o Brasil desperdiça talentos e recursos. Hospitais públicos operam com déficit de especialistas, pacientes sofrem com demoras desnecessárias e o sistema de saúde funciona abaixo de sua capacidade. A cada dia que passa, mais brasileiros entram nas filas do SUS. A cada dia que passa, médicos qualificados são impedidos de ajudar. A cada dia que passa, vidas são perdidas por uma burocracia que separa quem precisa de cuidados de quem pode oferecê-los. A pergunta não é mais se podemos nos dar ao luxo de mudar esse sistema – é se podemos nos dar ao luxo de não mudá-lo. O tempo está se esgotando, mas a solução está ao nosso alcance. Basta a coragem de abraçá-la.